Português English Español

Sina de Sísifo

Uma crônica urbana e filosófica que expõe as engrenagens da falsa meritocracia sob a perspectiva de um jovem em busca de inserção no mercado de trabalho. Confrontando a esperança ingênua do "esforce-se e vencerá" com a frieza burocrática dos escritórios e os privilégios do "Q.I." (Quem Indica), a faixa utiliza o mito de Sísifo para retratar o ciclo exaustivo e invisível da classe trabalhadora.

Bastidores: "Sina de Sísifo" nasceu da urgência de debater as ilusões da meritocracia em uma sociedade marcada pela desigualdade profunda. A narrativa acompanha o ritual de preparação de um rapaz — o sapato polido, a bênção da mãe, o nervosismo mascarado pela pastilha de mentol — que caminha sob o sol rumo a uma entrevista de emprego, carregando na pasta o peso de suas expectativas e de sua dignidade. O estalo poético veio ao contrastar o horizonte desenhado pela esperança com o "balde de água fria" do corporativismo excludente. Enquanto para as classes dominantes o erro é perdoável e o "coringa" do berço e do sobrenome garante o topo, para a maioria do povo a busca pelo sucesso se transforma no castigo eterno de Sísifo: empurrar a rocha do trabalho duro para ser devolvido ao ponto de partida pela frase "A gente te liga". A música é um grito para sair da estatística, denunciando o abismo entre quem vive da "areia da praia" e quem sobrevive na "areia da pá".

Botei a roupa nova,
Sapato no brilho.
Todo pronto pra prova
“Deus te abençoe filho!”

No meio do barulho,
Caminhei de sol a sol,
Vou cheio de orgulho.
Nervoso mastigo mentol.

Sala de gelo, fico com frio,
Nariz empinado, é meu brio!

Desenho horizonte
Com o dia bem claro!
Esperança de monte!
Que que tem de errado?
Sou o “quase” de ontem,
O “vazio” de agora.
Sem trunfo nem coringa.
E tem gente que brinca!

Currículo para leitura,
Da foto à assinatura,
Sou eu de frente e verso,
Busco o sucesso, espero!

Será que ele rubrica?
Sem Q.I. de “Quem Indica”,
Será que vai para o RH,
Ou pro filho rascunhar?

Resultado do dia:
“A gente te liga!”
Sol acolhe na saída,
Já esquenta na esquina.

Desenho horizonte
Com o dia bem claro!
Esperança de monte!
Que que tem de errado?
Sou o “quase” de ontem,
O “vazio” de agora.
Sem trunfo nem coringa.
E tem gente que brinca!

Eles sacam o coringa
Do berço e do nome,
Seguindo nessa sina,
Peço: Deus me aponte!

Erro meu é abismo, cadeia,
O deles não consome nem bambeia.

Desenho horizonte
Com o dia bem claro!
Esperança de monte!
Que que tem de errado?
Sou o “quase” de ontem,
O “vazio” de agora.
Sem trunfo nem coringa.
E tem gente que brinca!

Sei, a vida não é um lago límpido...
Mas como sair da sina de Sísifo?
Dias se vão eu sem nenhum gozo,
Mudam as cartas, piora meu jogo.

É preciso que algo logo se faça,
Sair da estatística, entrar no mapa.

Desenho horizonte
Com o dia bem claro!
Esperança de monte!
Que que tem de errado?
Sou o “quase” de ontem,
O “vazio” de agora.
Sem trunfo nem coringa.
E tem gente que brinca!

Sorte pra eles é na areia da praia.
Sorte pra mim é na areia da pá.
Ganho pouquinho fico contente,
Melhor isso que ficar no perrengue.